domingo, outubro 31, 2021

Bilogia

Lúcidez


Não me importa o mistério, contanto que continue me tirando os véus.

Descobrindo-me através de ti, visito recônditos do meu ser.  

Pelo seu olhar, alcanço minha entrega.

Navego nesse horizonte 

Perpasso nevoeiros e clarões

Mantenho a calma para saber mergulhar nas águas profundas do arrebatamento.

Respiro fundo, sinto o desejo escaneando meu corpo de baixo para cima e vice versa.

Permito que essa sensação cumpra seu ciclo de nascimento e morte.

Tenho como norte a entrega ao momento presente

Respiro o ar que sai do seu corpo e isso arrefece as ondas mentais e desperta os sentidos.

Crio o espaço necessário para a manifestação da selvagem que me habita.

Assim a saúde e através dela me permito adentrar no desconhecido.



Loucura


Meu novo eu pensa em ti a todo momento.

Sinto meu estado de presença constantemente alterado,

Como se uma descarga elétrica agisse sobre meu corpo.

Uso essa eletricidade para interagir com o mundo.

Lanço os olhos do desejo por onde passo.

Contagio a todos com esse sentimento que transborda

Seduzo, pois estou possuída pela sedução

Platônica, escondo meus versos com medo que descubra meu amor

Anseio pelo dia que voltará a me procurar

Devaneios de saudade viraram rotina

Ardo de desejo a qualquer hora do dia lembrando a sensação de estar ao seu lado

Traduzo o mistério ora como ciúmes, ora como amor

Entre sôfrega e confiante caminho na corda bamba da paixão

Tenho medo de cair, mas sigo buscando o equilíbrio.

Me acovardo diante da magnitude dessa emoção

que ao mesmo tempo me alimenta e nutre.

Minhas vísceras são meu novo cérebro

Falam comigo a todo instante como borboletas afoitas flanando sem cessar

O cérebro virou um acessório diante de todas essas sensações que tomam conta do meu corpo

Regida pelo delírio da paixão só peço aos deuses um pouco de serenidade para que continue essa jornada sã.

Te sinto orbitândo em minha volta

Um cordão imaginário nos une num só corpo

Construímos uma égregora 

O imã que gruda ao encontrar o metal 

O rastro do encontro não me deixa esquecer











quarta-feira, outubro 21, 2015

Fatale

Nunca me esquecerei a primeira vez que a vi. Tomando rauchbier e fumando cigarro mentolado naquela espelunca da alemanha oriental, ainda havia o muro. Assim que bati os olhos nela, cabelos negros e lisos na altura dos ombros e óculos grandes de armação preta, nossa conexão foi imediata! Ela me deu abrigo em seu bunker quando lhe contei que estava sendo perseguida pelo regime.
Certo dia confessou-me com orgulho seus traumas de infância, que sua mãe, antes de deixá-la no orfato, mentiu à menina, dizendo que ela era hemafrodita na tentativa de minar sua auto-estima. Lá foi vítima de inúmeras gozações dos coleguinhas. 
Dona de indubitável beleza e desprovida de masculinidade, chegou na puberdade sem deixar dúvidas de que era uma mulher com M maiúsculo, arrebatando corações e enchendo de amargura as menininhas orfãs por ela apaixonada.
Assim seguiu, com sua flamejante vivacidade e esperteza, alheia aos traumas de infância, com a convicção reservada somente aos dotados de QI superior. Nem sequer a cicatriz em seu rosto fora suficiente para eclipsar seu brilho. 
Não tardou a conhecer Chirsta Maria e logo entrou para o serviço secreto, demonstrando assim sua vocação nata para o extraordinário e seu gosto por um estilo de vida perigoso. Assim nascia a hemafrodita, mas ao contrário de dois sexos, possuia duas personalidades: a atriz e a espiã. Encenando-as a seu bel prazer.

quarta-feira, julho 10, 2013

Minha história

   Sempre fui apocalíptica.  A certeza da finitude, a falência da raça humana, a pobreza, a miséria, a ignorância.... regida pelos desenganos, deixei-me incendiar pela ideia do fim do mundo, ou ao menos do homem. Entrei em erupção e como um vulcão minhas lavas escorreram, quentes e escarlate, como sangue, porém inflamável. Das entranhas da terra explodi em mim mesma, meus pedaços viraram letras, frases e versos, todos magmáticos, mas não como rochas, pois ainda não esfriaram e são de outra matéria.
  Pensamento desconexos me afugentavam do centro de mim mesma, e como um oceano num maremoto inundei a tudo e a todos. Inundei minha alma com desesperança, não me deixei levar pela correnteza, insistindo em brigar com o mar e as ondas. Enfrentei tsunamis, fui até o triangulo das bermudas, não soube escutar os ventos e fiquei sem popa e rumo. Pensando ter encontrado o mapa certo, acabei sem terra à vista, sozinha em águas escuras e salgadas.
   Ainda assim voltei à água, aquela dos primórdios do meu ser, de onde surgi, a água da bolsa, a água in útero, da barriga da minha mãe, à água da vida, do amor, do contato íntimo, da conexão vital, do extremo da dependência, do amor incondicional, da cooperação inexorável, da troca energética, água do desconhecido, água rica, água intra-uterina. E lá nadei dentro da bolsa, flutuei ligada ao cordão umbilical até que a misteriosa semente da vida me tornasse o que sou hoje.
    Foi então que embarquei no taxi lunar que me levou para além  da lua, me levou para a via láctea, me levou ao buraco negro, me mostrou tudo o que conhecia e que ainda assim não é nem um grão de areia do que se conhece, me mostrou o invisível. E eu acreditei e vi.








sábado, junho 29, 2013

Cultura planetária

Experimente acordar e pensar: "Eu sou um terráqueo, não vivo sem o sol e respiro oxigênio". Quero dizer, não pense "sou brasileiro. ou sou paulistano, ou sou mulher, ou sou homem" vá além e pense que você é, antes de mais nada, um terráqueo, um habitante desse sistema solar.

Expansão


Nem todo mundo nasceu pra ser livre, a maioria das pessoas nem sabe o que fazer com a liberdade, a liberdade desregra, alarga, desmede, a gente precisa de bordas, limites, molduras, a gente não sabe pra onde expandir esse tanto todo, tudo e é tanto e é todo, que dá medo da morte, do infinito, do não sei, do livre, do solto, do via lácteo, do espasmo, do ser….

segunda-feira, maio 27, 2013

Benditos sejam


Vivam os malditos
Seus deboches e desdéns
O sacrosanto sarcasmo        
A predileção pelo avesso


Vivam os malditos
Da verdade escancarada
Do verbo dilatado
Polêmica tatuada no DNA 

Vivam os malditos
Seu gosto agridoce pelo incomum
O fardo pesado embalado
O óbvio sempre rejeitado

Vivam os malditos
E suas poesias feitas de lágrimas, sangue e semên
Sua autenticidade pungente
Sua marginalidade latente

Vivam os malditos
Para quem ousadia não é escolha
Guiados pela incerteza
Cientes de sua natureza extraordinária

Vivam os malditos
E suas sombras 
O medo do velado
O autêntico despudorado

Vivam os malditos
E seus amores intensos
Suas loucuras vis
Sua entrega descomunal

Vivam os malditos
De Baudelaire a Chacrinha
De Clarice a Nelson Rodrigues
De Cazuza a Itamar Assunção
De mim a você

Camm

sábado, maio 11, 2013

Fêmea


A dor de ser uterina
De  carregar dentro de sí a caixa do divino
A máquina milagrosa de gerar vidas
Tudo concentrado em uma só bolsa

Opera além da nossa vontade
E muito além do nosso entendimento
Vem conosco desde nascença
Independente de portar ou não um ser, ela funciona

Nosso corpo se prepara
Os hormônios são despertados
E militarmente desempenham suas funções
Preparam-se religiosamente para aquele ritual

Do lado de fora só nos resta aceitar
As mudanças de humor
Os cansaços, cólicas
As oscilações de peso

A sensibilidade ainda mais aflorada
A nossa condição de mulher
A aceitação da beleza desse rito de passagem
Ao qual não podemos fugir naturalmente

Período que traz consigo ensinamentos
Repleto de sacralidade ancestral
De mistérios e ocultismos
De ordem muitissímo orgânica
Culminado em sangue e alívio

Adoro ser mulher…

 Camm

Excêntrica


Hoje não tô pra festas
Distribuição de sorrisos
Conversas jogadas fora
O império do superficial

Escolhi o recolhimento
O encontro literário
A viagem vertical 
O silêncio

Hoje não quero música
Apenas as vozes da minha mente
A solidão que procura o encontro
O consolo da poesia

Não quero ouvir seus problemas, 
Nem observar sua neurose
Nem ter paciência
Nem aceitar forçosamente

Quero ficar comigo
Me perder no meu labirinto
E se possível demorar bastante pra encontrar o caminho de volta

Se quiser vir comigo talvez eu deixe
Mas tem que prometer que vai ficar quietinho
Deixar seu ego de fora
Sem histeria
Sem competição

Calmo
Silencioso
Presente
Você está no meu labirinto

Se encontrar a saída
Por favor, me mostre sutilmente,
Com delicadeza

Camm



Outono


Não me pergunta nada
Só me abraça e passa seu calor
Me entenda mudo
Me deixa quieta
Dorme comigo, só dorme, dorme, dorme....

Não pensa nada
Só me dá seu carinho e amor
Me aceita quietinha
Fica do meu lado
Me dá seu calor

Lado a lado
Corpo a corpo
Sem amanhã
Sem compromisso
O agora todo nosso

Me empresta seu calor
Dorme abraçado comigo
Não me pergunta nada
Não tenta me entender
Me aceita
Me ama e receba

Camm

Procura-se


O que tá dentro de mim querendo sair?
Aonde foi parar aquela lágrima que não sai mais do meu olho?
O que significa essa sensação diferente na boca do estômago?
Por que sinto saudade daquilo que eu quase não sei?
Para onde foram os sonhos delirantes?
Cadê o gosto do aconchego do beijo e dos corpos unidos na noite fria?
Cadê a loucura de sentir loucura?
O que precisa jorrar e eu não to deixando?
Pra onde tá indo todo esse fluxo de dentro?
Cadê aquela sua verdade que você me mostrou?
Cadê aquela minha verdade que eu escondi sem querer?

Camm

Nostalgia


Tô me sentindo tão down
Tentando decifrar qual o sinal 
O verso, a letra a rima
Sentir o aviso do coração
O frio gela até a espinha
A tristeza vem sempre sozinha
A rima é sempre só minha
A poesia dança na solidão
Trazendo a mensagem do coracão
Junto vem a aflição
Carência
Vontade de sentir junto
Não mais só
Descobrir o caminho
A tristeza vem com o recado
Eu quero pegar a correspondência
Sentir até o final
Só quero sentir
Não importa
Quero de volta meu coração
Com tristeza se faz uma paixão
Com paixão se faz vida

Camm

Sujeito e objeto



Adorava o jeito que ele pontuava as frases! Períodos curtos. Sentimentos intensos.
Lamento não ter sido tão longo nosso período juntos. No meu texto havia mais reticências… muitas vírgulas.
Mas ele insistia em usar exclamações e frases sucintas. Enquanto eu tentava, entre parentêses, prolongar aquela sentença.
Ele vinha com travessões e interrogações descabidas. Dentro de sua cabeça surgiam histórias sem começo meio ou fim. E eu, na tentativa de organizar a narrativa, me vi perdida num labirinto de frases e letras desconexas.
E o que era para ter sido um romance, acabou como livro de bolso.

Separação


É estranho quando a linguagem entre os corpos continua em sincronia, mas as mentes não mais. No plano do pensamento as diferenças não encontram um meio termo, um lugar para ambas se acomodarem e gozarem de relativa tranqüilidade. Quando unidos, os corpos conhecem os segredos escondidos entre a pele e os ossos. Mesclam-se com a maior desenvoltura e intimidade. A carência e o desejo emanam calor num abraço terno. Complementam-se como num bonito balé entre o vento e o mar. As bocas se unem. O magnetismo está presente e atuante. Os cheiros se misturam, formando um novo e erótico odor. Os corpos se entrelaçam, se unificam, não se sabe onde começa um e termina o outro.
Mas na ausência do encontro corpóreo, a mente é inundada por pensamentos nefastos e destrutivos, dor e sofrimento são inconvenientes companhias. Os minutos de solidão tornam-se torturantes. Uma eterna desconfiança insiste em sussurrar ao ouvido, a ponto de enlouquecer. A mente desenvolve uma poção, cujo ingrediente principal é a paranóia e só há um antídoto para saná-la, e este antídoto é o outro, com seu corpo, sua presença e sua voz! Ou qualquer coisa que o corporifique, arrancando o ser do mundo da fantasia e da loucura. Entregando-o novamente à realidade.
A separação se faz necessária, vital, imprescindível. A intensidade da dor, quando do momento da ausência, só passará quando houver o desapego. O desligamento, tanto mental quanto corporal, precisa ser acionado, pois um não existe sem o outro e a realidade conjunta configura o caos. A única esperança de paz é a solidão de fato. A solidão plena. Sem os fantasmas malévolos da fantasia. A conexão precisa aprender a acontecer por outra via, que não a do sofrimento e do desejo.
Hoje és observado de longe... com a calma de quem observa o fogo sem colocar as mãos em suas labaredas. Apenas aquecendo-se enquanto pensa... pensa... aproveitando-se desse breve e pacifíco reencontro consigo mesmo.

domingo, agosto 14, 2011

Tumtum

E que os nossos corações continuem sendo irrigados com jorro da esperança renovadora, que drena conceitos e sentidos em eterno e incessante fluxo de purificação, alcançado o caminho da eternidade!