domingo, junho 11, 2006

Jantar

Ela precisava daquele homem. Ela precisava da pessoa imaginária que ele havia criado para ela. Ela precisava daquela segunda identidade, permanente na cabeça dele, e que levava ambos a loucura. Ele, pelo ciúmes. Ela, pela dependência de se sentir objeto de ciúmes. E assim estavam os dois, cara a cara sentados a mesa de um fino restaurante francês. Olhavam-se sem parar e de vez em quando fingiam ler o cardápio. Ele já havia dispensado o garçom, nada o irritava mais do que ter que se apressar para satisfazer as vontades de um garçom, até porque gostava de viver intensamente todos os minutos ao lado dela, e o pedido da comida, quando podia admirá-la em sua escolha pelo cardápio, tinha um sentido todo especial. Ela gostava de deixá-lo conduzir as coisas, dispensar o garçom e sentir-se o dono do lugar e situação, isso insuflava seu ego. Ela gostava de vê-lo dono de si, aquilo a alimentava. Algo nela dizia que quanto mais liberdade desse a ele, mais estaria o prendendo, pois ele veria nela uma possibilidade de cumplicidade e sem se dar conta, necessitaria disso, como de oxigênio. E ali encontravam-se os dois, sentados, um diante do outro, jovens, lindos, elegantes, inteligentes, sofisticados, calados, pensando na melhor estratégia de se prenderem um ao outro sem perder a liberdade. A liberdade, ambos a desejavam e não sabiam como conciliar o desejo mútuo que os invadia, com a tão sonhada liberdade. Eram capazes de passar a noite inteira envoltos por jogos de sedução, ambos sabiam como executá-los muito bem, possuíam o grau de tensão exato para nunca perder a possibilidade de provocarem um ao outro, o que tornava a relação infinitamente mais perigosa e longe de uma conclusão. Talvez, se não possuíssem tão aguçado dom em relação um ao outro, fosse mais fácil lidar com a situação. O problema é que aquele jogo os viciava, como se não conseguissem terminar uma partida jamais, ou então terminava-se uma e começava a próxima, sem nunca ter trégua. Se ele tivesse escolhido uma parceira diferente... talvez tivesse mais êxito. Se ela não gostasse tanto de jogar... talvez fosse mais feliz. – Hum, acho que vou querer pato com molho de laranja – disse ela – uma ótima pedida, esse prato é muito bom, normalmente é feito com... – isso bastava para que ele começasse um enorme discurso, onde poderia discorrer sobre todos seus dotes culinários. No começo isso a irritava, mas ele possuía tamanho talento para fazer-se agradável e doce, que ela sucumbia ao seu discurso, e deixava-se levar pelas palavras bem colocadas e pela voz que invadia seus ouvidos e a fazia flutuar. Assim foi o jantar, durante toda noite trocaram olhares, tomaram um bom vinho, ouviram boa música, comeram boa comida, degustaram do mais autêntico prazer material, toda e qualquer possibilidade de ligação extraterrena havia sido subtraída pelo império fornecido pelos sentidos. O que tornava o jogo cada vez mais perigoso e sem fronteiras demarcadas. Os espaços eram invadidos sem ao menos as percepções das partes envolvidas, sem perceber e até mesmo sem querer, suas vidas iam se fundindo, fundindo, fundindo, como dois anéis, um de ouro e outro de prata, sendo derretidos na mesma forma. E como fariam para separar o que pertencia a cada um depois? Mal sabiam eles que os cuidados para não fundirem-se funcionavam de maneira contrária. Quanto mais esforços fizessem para se dividirem, mais estariam presos um ao outro.

Camila Ribeiro

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Gostaria que vc continuasse.... Incrível descrição das relações humanas...

7:01 PM  
Blogger Merikol Duarte disse...

Gostei do texto. Dá vontade de querer saber até onde vai o jogo de sedução. Parabéns.

9:02 PM  

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